A ascensão da 'manosfera' muçulmana e o policiamento digital de mulheres

Uma nova vertente de influenciadores digitais está transformando redes sociais em campos de batalha ideológicos sob o pretexto da fé. A chamada "manosfera muçulmana" adapta discursos de grupos como incels e ativistas dos direitos dos homens ao contexto religioso, criando um ambiente hostil para mulheres, especialmente em países do Oriente Médio e comunidades islâmicas no Ocidente.

Relatos como o de Mariam, administradora de um grupo no Facebook com quase 400 mil mulheres nos Emirados Árabes, revelam o impacto real dessa tendência. Ela descreve ter sido inundada por mensagens que variam de assédio sexual a "conselhos" agressivos sobre como se vestir ou se comportar. O fenômeno não é isolado: pesquisas indicam que a grande maioria dos discursos de ódio e assédio moral em redes sociais da região tem como alvo figuras públicas femininas.

Por que isso importa

O avanço desses grupos mostra como o discurso de ódio se adapta a contextos culturais específicos para ganhar legitimidade, usando a religião como escudo contra críticas. Para o público brasileiro, o caso serve de alerta sobre como algoritmos de recomendação em plataformas como TikTok e YouTube podem impulsionar conteúdos misóginos globalmente, independentemente da barreira linguística. Além disso, reforça a necessidade de moderação de conteúdo mais eficiente em redes sociais utilizadas no Brasil para proteger minorias e grupos vulneráveis.

Do 'Red Pill' ao discurso religioso

Influenciadores conhecidos como "Dawah Bros" no Reino Unido ou treinadores de relacionamento no mundo árabe utilizam uma retórica que mistura insegurança financeira, instabilidade política e identidade religiosa. Eles argumentam que o feminismo desestabilizou a sociedade e que os homens precisam retomar o controle, muitas vezes sugerindo a violência como método de "disciplina".

Diferente dos pregadores de TV das décadas passadas, esses novos criadores de conteúdo operam sem horários fixos e com alcance global. O perigo reside na transformação de opiniões pessoais em supostos dogmas. Quando um influenciador apresenta sua visão machista como uma instrução divina, qualquer discordância é rapidamente classificada pelos seguidores como um ataque à própria fé, silenciando vozes críticas e isolando mulheres no ambiente digital.

Fonte: Wired